Este episódio do LiViOuvi começa quando, no lugar de uma festa tradicional de 15 anos, minha filha escolheu uma viagem e algumas melhorias em seu quarto que, incluíram, obviamente, uma TV. Com acesso a internet. Por que acesso a cabo é coisa de velho.

Compra dali, instala daqui, em poucas horas estávamos testando a interface e seus aplicativos – é uma Smart TV, porque TV sem aplicativo é coisa de… você sabe – , e me deparo com o Globo Play.

Daí fiquei pensando que a gente fala mal da TV aberta, mas não se abre para descobrir o que ela faz para se adaptar ao mundo de nossas timelines. E o Globo Play é esse tipo de resposta: ele parece ter sido feito de encomenda para aquele que é o produto mais bem acabado da vênus platinada desde sempre: suas minisséries.

Fruto de um intenso trabalho da turma do Globo Lab, essa nova safra de séries é lançada primeiro para esse aplicativo e depois na programação normal. Você deve ter ouvido falar de títulos como Sob Pressão, Os Dias Eram Assim e…o lançamento do segundo semestre: Filhos da Pátria.

Um dos melhores trabalhos recentes da TV, Filhos da Pátria vai revelar um passado assustadoramente atual.

Família Bulhosa: ascenção rápida nos conta mais sobre Brasil de hoje.

Na trama, criada por Bruno Mazzeo e Alexandre Machado, o centro da história é a ascensão da família comum os Bulhosa, chefiada por um funcionário público do Paço Imperial, antes responsável pelas correspondências Brasil X Portugal que vê seu prestígio desaparecer após a independência. Este é o ponto de partida do roteiro, que tenta mostrar o que nos fez ser o Brasil de hoje.

Um lance muito legal é que figuras históricas não aparecem. Seria fácil usar esta bengala. No lugar disso, os autores optaram por retratar a visão “não privilegiada” dos fatos. Dos escravos, comerciantes, imigrantes e na voz deles, colocar a sua crítica para a formação do país. Ou, até mesmo, do jeitinho carioca e brasileiro de Pacheco (Matheus Nachtergaele).

Outro acerto é a visão não romanceada dos escravos. Se a crueldade era notória, sobretudo em ambientes rurais, no Rio de Janeiro mais urbano, a gente já começa a ver alguns brasileiros nascidos na terra tentando se libertar, trabalhando, rindo da limitação natural dos brasileiros não escravos. Essa visão mais realista agrada.

Assim como o texto atemporal. Tiveram o cuidado de não exagerar em expressões de época, usando dentro de um contexto. E se você reparar bem, trazendo trechos de música e de falar de personalidades atuais para dar um tempero diferente.

Não dá para não destacar o Geraldinho Bulhosa de Johnny Massaro! Ele me lembrou os personagens compostos por Johnny Depp em alguns de seus momentos mais surrealistas. E, ainda assim, bem brasileiro. Um malandro que não acredita ser necessário estudar ou trabalhar para ir adiante. E, sem querer dar muitos spoilers aqui, ele vai adiante.

E, claro, a pesquisa e produção que supera muito do que se tem feito nos canais abertos (e até em alguns fechados, ouviu, Multishow?). Inspirado esteticamente nas ilustrações de Debret, você vai poder conferir um cuidado muito especial na composição visual em figurinos, arquitetura e temperatura das cores. Você parece navegar por ilustrações do artista da missão francesa que esteve por aqui no início do século XIX a convite de D. João VI.

Esse cuidado é evidente também no trabalho de CGI, aqui focado nos 3Ds que dão suporte à “contação” de cada capítulo. Muito bem integrados às cenas, as reconstituições de cenários do que seria ao Rio da época oscilam entre um realismo mágico e o mais puro foto realismo. Campo de Santana, Cais do Valongo, Rua da Direita e Quinta da Boa Vista são retratados em riqueza de detalhes, ou em liberdades estéticas bem interessantes.

E, para não dizer que não falei mal… tem a questão da trilha sonora. Isso não funcionou muito bem, não. No LIVIOUVI#2, brinquei com o terno roxo do Hanz Zimmer. Mas, talvez tenha esquecido de mencionar que o cara é de fato um gênio. Suas trilhas sonoras são – grande parte das vezes – personagens principais de filmes para os quais é contratado, como Interstellar e Dunkirk.

Mas, aqui nas terras Tupiniquins, os orçamentos apertados afastam as grandes orquestras e pesquisas musicais para longe. E tudo soa como aquela banda do mesmo Largo da Carioca registrado na série. A música criada por VSTs incomoda os ouvidos mais treinados. Mas isso não é um pecado só de Filhos da Pátria. É geral. Bora mudar isso?

A Escalada e motivação finais, também deram uma derrapada. Quando a trama caminha para o seu momento de clímax e resolução, o roteiro escorrega em uma irrealidade básica. Não vou dar spoiler aqui, mas vale este ponto de atenção. A crise que se instala da casa dos Bulhosa é resolvida de forma preguiçosa e até um pouco piegas.

Sim, eu fiz uma maratona no Globo Play (1 membro). O importante é que essa experiência detonou alguns insights.

O período que começou com a chegada da família real para o Brasil, em 1808, e vai até a proclamação da república em 1899 já foi retratado em inúmeros formatos e vieses. Tem tanto material, primário, secundário e ficcional que não é raro esbarrar com boas sugestões em qualquer mídia. HQs, por exemplo, têm gerado surpresas muito interessantes desde o bicentenário da data, em 2008. E como misturar o que a gente vê em todas as mídias é a função aqui no LiViOuvi, trouxe 3 HQs sensacionais.

Dom João Carioca e Nas Barbas do Imperador. São ambos criados pela mesma dupla. Com roteiros de Lilia Moritz Schwarcz e arte de Spacca, têm inspiração clara em Sergio Aragonés, um dos quadrinistas mais talentosos e que, à sua maneira, reinventa o ritmo das HQs, com seus vários planos de piadas e cenas aleatórias.

Nós vemos isso em João Carioca. Seja no traço, seja no texto ágil e cheio de piadas internas e subtextos. Em pouco mais de 80 páginas a gente acompanha a trajetória deste monarca indeciso que não queria estar no lugar que o colocaram.

No Barbas do Imperador podemos conferir uma transição bem interessante de formato. As ilustrações melhoram e são mais detalhadas. Além disso, o texto é ainda mais ágil. Intervenções de impressos e fotos da época, a primeira a ser bem registrada pelos daguerreótipos, nos confrontam com a realidade.

Ou melhor, nos mostram que a época do registro das imagens e vozes estava começando. E teve no imperador um de seus maiores entusiastas.

O mundo de Zumbis de Harald Striker. Outro exemplo bem interessante é uma publicação de 2012, editada pela NerdBooks, braço editorial do grupo Jovem Nerd. No vídeo aí em cima você pode conferir a entrevista que fiz com o ilustrador da HQ, o Harald Stricker.

Concluindo

A gente fala muito do Brasil em que queria viver. Mas esquece que ele é construído todo dia, com cada ação ou omissão não exatamente e apenas dos governantes ou de quem detém alguém poder. Mas, por nós mesmos.

Somos nós que estávamos com Bulhosa no Paço Imperial, nos locupletando a todos. E também com os arroubos científicos de um Imperador Nerd que queria ser professor, ou de seu pai matador de zumbis e de casamentos.

Enfim, se quem tramou a queda da Monarquia, Enganou Napoleão, testou o telefone pela primeira vez, reinventou o futebol, a bossa nova e o funk der certo ou não. Não é questão de culpa. Ou da oportunidade que faz o ladrão.

Talvez olhar para esses pequenos pedaços de cultura de almanaque nos ajude a despertar para uma verdade, talvez a única:

A gente está errando as mesmas coisas desde 1808.

Faltou errar diferente.