Tem uma pergunta que sempre me persegue. Eu sou ou não sou bom na minha profissão? Antes de tentar responder eu volto um pouco no tempo e tento me lembrar qual é ou quais foram as minhas profissões. Sei que hoje em dia existe alguns afortunados que nascem com o sonho de se tornar jogadores de futebol ou empreendedores e encontram meios e oportunidades de fazer isso por toda vida. Quando eu era moleque meu sonho era trabalhar como desenhista. Porém, ao longo de três décadas acabei trabalhando como vendedor, pipoqueiro, contato publicitário, borracheiro, camelô, repositor de supermercado, segurança de casa noturna, auxiliar de produção, enfim trabalhei em inúmeras profissões. Geralmente nessas tarefas havia um supervisor ou funcionário mais antigo que estava ali para me apontar a forma correta de trabalhar ou me dizer se a forma que eu trabalhava estava correta. A paixão pelo desenho continuava intacta. Por mais que eu me ocupasse com outras atividades a vontade de apanhar um lápis, um bloco de folhas brancas e deixar a imaginação correr solta, ficava voltando a todo instante. Era como se lembrar vagamente de uma música antiga. A letra era desconhecida, mas a melodia permanecia por ali. E sempre que me sobrava um tempo eu me dedicava ao meu hobby preferido. Desenhar, criar histórias fantásticas, tentar reproduzir a arte de grandes artistas. De tanto treinar, copiar e tentar viver aquela realidade de um dia me tornar um artista, eis que um dia do nada consegui fazer um desenho decente. Era uma cópia de uma ilustração profissional. Não havia uma criação no processo. Não entendia nada sobre perspectiva, luz e sombra ou enquadramento. Só havia conseguido reproduzir uma ilustração e na época com certeza não tinha maturidade suficiente para perceber que o desenho provavelmente nem era tudo isso. Eu tinha feito um bom desenho. Mas um bom desenho não fez de mim um bom designer e não havia nenhum profissional das artes presente para me dizer se meu trabalho era realmente bom. Pode ser difícil de acreditar, já que repeti de ano e fiquei de recuperação muitas vezes, mas eu era e sou um tremendo CDF, do tipo que passava a hora do intervalo enfurnado nas bibliotecas ou com a cara enfiada num livro. Demorei muito tempo pra perceber que adoro aprender coisas novas e adorava receber boas notas. É bem triste quando você começa a trabalhar com algo que você gosta, depois de um tempo você acaba se dando conta que ninguém vai lhe dar uma nota A por um trabalho bem feito. Sim existe o reconhecimento por meio de elogios e pagamento realizado no dia combinado também funciona como excelentes parâmetros de que estamos realizando um bom trabalho. Incrivelmente nada disso responde a pergunta de maneira satisfatória. Eu sou ou não sou bom no que eu faço? É a tão conhecida síndrome do impostor. Não pense que ela só atinge o calouro recém-saído da universidade. Não, de tempos em tempos, ela tenta se instalar na mente de todo profissional por mais competente que ele seja. Tentando minar seu progresso. A dica aqui é se lembrar que com o tempo, experiência e maturidade vamos conseguindo contornar essas inseguranças. O importante é seguir progredindo, trabalhando e estudando para continuar crescendo profissionalmente.
O profissional competente não propaga seu trabalho, as pessoas fazem isso por ele. Falar continuamente de seus feitos e resultados não é sinônimo de competência e sim de insegurança. Quem sabe fazer apenas faz, os elogios e reconhecimento são consequências de um trabalho bem feito e de qualidade. Ednilson Emmanoel Cintra