Não adianta apenas acreditar no que se faz é preciso saber dizer o que se faz.

Do contrário, de bem intencionado profissional, você passar? por um pedante qualquer, desses que o mundo está cansado de deixar na geladeira.

Cena1

Você tem na mão direita o relatório de faturamento pessimista de sua empresa e na esquerda o cartão de um profissional de comunicação. Alguns “consultores amigos” (dê um desconto para a antítese, ok?) indicaram que um novo site para sua empresa poderia mudar sua situação. “Tem gente faturando horrores com comércio eletrônico, e até mesmo uma presença institucional melhor daria mais credibilidade e poderia abrir portas para novos negócios”.”Tem gente investindo em assessoria de imprensa e, com isso, aumentando a visibilidade da marca…”

Anos e anos da vida investidos numa empresa sólida e tradicional e, a essa altura do campeonato, minha única chance é entregar tudo para um cara que tem um cartão pessoal cor de abóbora?

Cena 2:

Você decide ligar.

– Alô, eu gostaria de falar com o …

– É ele.

– Oh…Boa tarde. Quem me indicou você foi o Dr.. Você realizou para ele um trabalho…aham..uma homepage (assessoria, tradução, revisão, diagramação, propaganda…) da empresa dele. Eu estava pensando se poderíamos conversar … penso em fazer algo parecido.

– Ótimo. A primeira coisa é desenvolver um completo redesign do seu logo, depois passaríamos a fase de levantamento de conteúdo e arquitetura de informação. Em seguida, utilizando as mais avançadas técnicas em actionscript, trataríamos de sua imagem institucional. É um site institucional certo? Então acho que umas cinco ou seis seções dariam conta do recado. Com 15 mil pitombas fazemos isso em 3 semanas. O sinal, você deposita, na minha conta que vou passar por e-mail em 5 minutos. Acho que podemos trabalhar com 1,5 mil pitombas para começar. Fechado?

Você queria saber apenas se era difícil registrar o que eles chamam de domínio. Ficou sabendo, através de uma matéria que leu no Caderno de Informática de um famoso jornal, que o nome da empresa seguido de “.com” é a nova moda. Mas não entende nada do que o rapaz disse…nada.

Cena 3

Você, nostálgico, lembra de como era simples o sistema das páginas amarelas, dos homens-sanduíches na cinelância e até mesmo nos anúncios de revistas especializadas. E joga o cartão cor de abóbora no lixo, enquanto o garoto está mandando um e-mail que jamais será lido ¿ você não lê e-mails, pede para secretária imprimir.

Em resumo…

O que esse pequeno quadro de comédia de erros mal escrito quer representar é a difícil tarefa de se colocar no lugar do cliente, pensar como eles. Sim, eles pensam. De início pensam que somos criativos meio que inconseqüentes ainda que bem intencionados. Pensam também que fazemos quase nada e cobramos muito e que, o mais grave, nossa atividade tem muito pouco de especializada.

Um dos primeiros passos para conseguir virar este jogo, por incrível que pareça, é pensar assim também. Uma (ou algumas) dose se autocrítica não só faz bem, como deve ser tomada antes das refeições e reuniões com clientes.

Não adianta apenas acreditar no que se faz é preciso saber dizer o que se faz. Do contrário, de bem intencionado profissional, você passará por um pedante qualquer, desses que o mundo está cansado de deixar na geladeira.