Como contar para o mercado que eu abri uma empresa e colocar isso no currículo? Esta foi a dúvida de um leitor e ela me deu oportunidade de refletir sobre o que exatamente é a evolução profissional nos dias de hoje

Semana passada, em meio aos folguedos da Copa do Mundo, pintou um questionamento em nossa Slack bem interessante: como fazer para inserir a formalização de sua atividade independente em seu CV? Mais do que isso, seria esta mudança de foco e reposicionamento uma influência em suas próximas decisões comerciais?

Para resumir e dar um contexto, o Henrique Mirai, o autor do questionamento, teve uma trajetória bem intensa no que diz respeito à sua independência profissional. Nas palavras dele:

Formei em 2010 e fora breves (menos de um ano) experiências em empresas, sempre fui freela. Só que só agora, porque o negócio começou a escalar, me formalizei mesmo e criei o meu estúdio…

…só que daí no meu CV tá os meses nos locais e os anos como freela (coloquei freelancer) com pequenos gaps no máximo. O portfólio – sou designer – tem poucos projetos, mas são os mais atuais e principalmente aqueles que eu bato no peito e falo “fui que eu fiz e quero fazer mais do tipo de novo”, o que já foi questionado uma vez num processo seletivo (“como assim você tem tanto tempo como freela e tão poucos projetos?”).

Henrique, mais do que uma dica pontual de em que parte do seu CV você deve inserir suas experiências (temos um vídeo explicando isso, aliás), acho que suas dúvidas me dão a oportunidade de comentar algo que é pouco dito por aí.

Antes, um pouco mais de contexto

Fomos doutrinados a entender a evolução profissional como uma linha reta. Chuto que, muito provavelmente, esse conceito vem da filosofia que regia os postos de trabalho do século XX, baseados em lógicas industriais onde cada um tinha uma função e ia melhorando até alcançar a aposentadoria. Só chute.

É óbvio que este pensamento acabou por ficar gravado em nossas cabeças. Vimos avós e pais trabalharem assim, por que estaria errado, não é mesmo?

Só tem um porém: na revolução que se sucedeu à criação da internet comercial (já se vão 20 e poucos anos…), fomos pouco a pouco “matando” todos os intermediadores de nossas relações comerciais, pessoais, sexuais e profissionais. Não necessariamente nessa ordem. 🙂

Uma das primeiras “vítimas” foi o varejo. Sim, estou falando da pioneira Amazon. Em seguida, tivemos a indústria fonográfica. Sim, estou falando dos marketplaces de mp3 (hoje já superados pelo Streaming). A lista, é conhecida e acumula “falências conceituais” de diversos intermediários: rede hoteleira (AirBnB), transportes (Uber), bancos centrais (Bitcoin) e até mesmo relacionamentos pessoais (Tinder) etc etc etc.

Você acha mesmo que as relações profissionais ficariam de fora desta pequena revolução não-televisionada? Óbvio que não. Seja pelo crescimento da “gig economy” ou pela resignificação dos espaços de trabalho, o ato de trocar seu tempo por remuneração já não é mais o mesmo. E não mais será como antes.

É aqui que chegamos à resposta aos seus questionamentos, Henrique. Me parece que você entende sua evolução profissional como a linha reta que mencionei acima. Só que, ao que tudo indica, não é mais assim.

A evolução profissional, hoje em dia, é uma espiral

Quando você resignifica a forma de entender sua atividade profissional e criativa e a deixa alinhada com o contexto de hoje em dia, desloca o foco das atividades e clientes para a sua EXISTÊNCIA ENQUANTO ATOR INDEPENDENTE nesse cenário. Ou seja: tudo o que você fizer terá sido feito pela mesma ENTIDADE. No caso, você.

Olha que há um tempo atrás lançamos um programa que dizia já isso: você não “evolui” necessariamente ao sair de freela para dono de estúdio. Você ESTÁ dono de estúdio.

Posso até mesmo pontuar com um exemplo pessoal. Mesmo com a contemconteudo.com criada, rodando e com clientes, recebi um convite para integrar a equipe de planejamento de uma agência aqui no Rio de Janeiro no período das Olimpíadas. Fui. E gostei. E fiz amigos. Deixei de ser o Head da contemconteudo.com? Não. Meu CV mudou? Sim. Para melhor? Sem dúvida. Será que é legal alguém que já criou um negócio ter um CV? Por que não?

Resumindo: colocamos e tiramos chapéus sem deixarmos de sermos nós mesmos. E, nosso Resumé (ou seja, nosso resumo profissional) precisa refletir essa versatilidade e, claro, quem somos.

Em um mercado fluido como nós vivemos, não serão poucas as oportunidades que heads de empresas serão contratados por outras JUSTAMENTE por isso. Ou que freelancers estabelecidos darão um tempo em sua carteira de clientes para assumir missões pontuais em estruturas mais robustas.

Ou seja, a linha reta nos condenava a uma ilusão de que ir para frente era deixar para trás tudo o que construiu. A evolução em espiral nos deixa prontos para desafios 360 graus.

Era isso. Espero ter ajudado.