Conectados ao lado mais animalesco de todos nós, vivendo em seu próprio tempo, uma época pré-moral e pré-burguesa, os predadores de humanos nos assustam porque são, eles mesmo, tão humanos quanto nós.

Neste artigo escolhi um tema polêmico: assassinos em série. Quer dizer, sei lá se é polêmico num mundo/Brasil como temos hoje, mas pelo menos um tema curioso e repleto de possibilidades ele é. E não estou falando só no cinema não. Eles, a seu modo amoral, representam o animal que teimamos em ocultar em nossas reuniões corporativas, em nossos relacionamentos pessoais, na hora de comer, na hora de eliminar aquilo que da comida não aproveitamos, no mundo digital, na etiqueta social que nos obrigamos a ter para viver em comunidade.

Os Assassinos em Série são, em nossa sociedade ulta-pós-qualquer coisa, um de nossos elos com o real

No cinema a inteligência é má.

Na telona, os Assassinos em Série são um lembrete vivo (ou quase) aos cidadãos comuns, aquele americano médio do qual tanto falam as pesquisas, que ser inteligente é ser mau. Ouvir com deleite sincero a sétima sinfonia de Bethoven é quase sinônimo de anomalias sérias como comer o fígado de pacientes, alfinetar até a morte adolescentes indefesas, matar e gostar.

Vejamos o caso de meu personagem preferido: Dr. Hannibal Lecter.

No primeiro filme, O Silêncio dos Inocentes (The silence of the Lambs , Johanatan Demme, 1991) ele é convocado de seu exílio pelo próprio FBI, na figura da agente Starling, para ajudar a capturar um de seus ex-pacientes.

Elevado a ultra-potência, o mal aqui é a solução contra o próprio mal. Hannibal é o ser supremo, o canibal; o mestre dos mestres. E o que vemos? Latrinas lúgubres? Lâmpadas fluorescentes que piscam para esconder o local onde o assassino está nos esperando? Não…

Tudo é limpo e bem passado, penteado, escovado e desinfetado. Tudo é claro e bem explicado. Tudo é lógido e constrangedor como o desconforto do primeiro encontro, quando o Dr. Lecter simplesmente disseca com algumas frases toda a vida pregressa da agente caipira e seu perfume marcante. Mesmo comendo a tudo e a todos, Lecter é límpido em suas elocubrações. E está a todo momento lembrando ao público que…

Ser inteligente é mau, muito mau.

A lição continua nos dois outros ótimos filmes que vieram em seqüência, com destaque todo especial para a cena da morte do batedor de carteira nas ruas de Florença, de uma violência infinitesimal, e da resposta clássica do “Eu vou comer sua mulher hoje”, dada ao Inspetor Rinaldo Pazzi, aquele mesmo que, minutos depois, bem, fez das tripas coração para tentar fugir. (trocadilho, trocadilho)

No Brasil, temos mendigos, beberrões e simplórios.

Aí viajamos para nossa terra, onde, como por lá, estes estranhos seres andam pelas ruas se não aos montes, em quantidade muito maior do que imaginamos.

E o que o choque do real nos conta? Serem quase míticos de QI´s tão elevados quanto as contas bancárias que possibilitam comprar galpões para seus divertimentos? Não. Os assassinos em série nacionais figuram nos livros da Ilana Casoy (autora de dois até agora, muito bons por sinal) como seres do povo, bancários, ex-escravos, vigias, irmãos, motoboys.

Em sua maioria ouvem vozes, são tentados pelo capeta ou pela mulher que usava uma saia tão curta que pedia para ser violentada. Mal sabem o que fizeram, não se arrependem porque estão além da moral. São jogados atrás das grades onde apodrecem até hoje.

Ser inteligente é mau. Ser assassino em série no Brasil, é pior ainda.

Um momento de reflexão.

Seja no mundo do glamour ou nas ruas de Minas Gerais, os Assassinos em Série são referência fundamental para quem trabalha com comunicação. Conectados ao lado mais animalesco de todos nós, vivendo em seu próprio tempo, uma época pré-moral e pré-burguesa, os predadores de humanos nos assustam porque são, eles mesmo, tão humanos quanto nós.

Não é à toa que o pai de todos, o primeirão, jamais pego, tinha por passatempo delicadas dissecações em moças de vida-fácil na Londres do século XIX.

De um jeito ou de outro, eles sempre conseguem nos ver por dentro.

Livros sobre o tema

Ilana Casoy nos trouxe nos últimos dois anos estes lançamentos bem interessantes. Com um tom levemente jornalístico, suas obras nos fazem pensar porque os assassinos daqui são tão mais chinfrins do que os de lá. O Serial Killers. Louco ou Cruel?, é composto por duas partes. Na primeira fala-se do lado psicológico e físico dos predadores, mitos e crenças, o perfil do criminoso e a investigação do FBI. Na segunda parte, casos reais clássicos de serial killers internacionais, como Ed Gein, que inspirou o filme de Hitchcock, Bundy, um político que quase se tornou presidente, Kemper, que tinha um QI superior ao normal, o palhaço assassino, um louco, um caso não resolvido, entre outros.

Serial Killers. Made in Brasil expõe as facetas dos assassinos em série brasileiros. Passamos a conhecer a trajetória de casos famosos como Chico Picadinho, O Monstro de Guaianazes, Febronio Indio da Brasil, O Monstro da Morumbi, O Vampiro de Niterói, entre outros. Se o mundo do cinema nos mostra todo aquele aparato tecnológico, com luzes negras e milhares de monitores e recortes de revista com fotos comprometedoras, os livros da Ilana são mais diretos, crus até mesmo. A comparação é riquíssima. Leitura e referências obrigatórias.

Bom, precisa nem dizer que aguardo comentários e, claro, sugestões…em série.