Algumas reflexões sobre aquilo que chamam de startup e trabalho freelancer no país das dificuldades

Caiu aqui no meu leitor de feeds, uma matéria do portal Tech in Asia que analisa o incrível crescimento dos portais de freelancers em locais como a Indonésia. Estamos falando de centenas de milhares de inscritos (que não param de chegar) que disputam, no já tradicional sistema de leilão, jobs em design, desenvolvimento e também conteúdo, marketing e planejamento.

Além da operação local do Freelancers.com, novos players do segmento com o Scribu, se diferenciam por promover encontros, palestras, programas de capacitação e até mesmo a criação da Associação dos Freelancers da Indonésia. Que legal, né? A Indonésia tem uma associação de pequenos empreendedores pessoais. E aqui?

Por que estou falando isso?

Ontem, em uma das reuniões para divulgação do sistema que desenvolvi para atender pequenas empresas na criação de conteúdo relevante para suas operações, conversava com um dono de aceleradora que pontuava o quão difícil está o mercado:

Quem pode, está diversificando os seus negócios para, além de acelerar empresas, prestar consultoria para clientes maiores…

Em um clima amistoso, a conversa demonstrou que o movimento “startupeiro” no Brasil, em alinhamento lógico com a crise geral, dá seus rateios em 2014. Que turmas, uma vez aceleradas têm dificuldade de “desmamar” e continuam encostadas pelos escritórios, alugando salas ao lado e não andando com as próprias pernas.

Isso sem falar na geração de receita que, se é deixada para depois em locais pseudo-glamourosos como o mercado americano – , é aqui questão de vida ou morte. Para pagar a conta de luz, sabe?

Confrontando estes dois acontecimentos, o crescimento monstruoso de iniciativas de auto-emprego em locais distantes e a estagnação preocupante do mercado nacional, fico aqui pensando que, na prática, colhemos o que plantamos. Olhe aí, na semeadura do campo fértil das ideias de futuros empreendedores e veja se por lá, você não encontra, disfarçadas de regras do jogo, as seguintes características:

1 – Um clima predatório. Em todas as reuniões que participei ao longo de 2012 e 2013, estava claro para mim que os interessados em acelerar ou investir, tinham a mandíbula prognata de predadores natos. Frases como “Aqui nos interessa projetos de impacto e alta performance, para o segundo round de investimentos” ou “Vamos colocar você em contato com grande VC lá de fora”, enfim, sublinhavam uma linha de montagem de negócios nascentes. Algo como senhores feudais que solicitavam a seus arrendatários a criação de prateleiras ou vitrines bem vistosas para, no armazém da vila, escoar a produção. Ok, negócios são negócios. Mas negócios PRECISAM TER FUNÇÃO, ainda mais em um país como o nosso.

2 – Completa dissociação da realidade do país. Sempre me espantou a inabilidade de quem se aventura em criar uma empresa no modelo “startup” em olhar para o próprio bairro, a própria cidade e propor soluções antenadas, criativas e “sexy” que resolvam a vida de alguém que precisa cruzar 50 km para trabalhar. Ou ainda conseguir fechar a conta do mês no supermercado. Passar no ENEM. Colaborar com a limpeza urbana. Identificar e exibir brigões e/ou taradões em grandes eventos. Educar os filhos enquanto os protege das ameaças digitais. Divertir todas as gerações ao mesmo tempo e com o melhor do mundo online e offiline. Trocar a fiação clandestina pela oficial e ganhar pontos de fidelidade. Montar um mapa social de locais perigosos, ou de venda de drogas, ou das milícias. Exemplos não faltam e, como “ideia é mato”, fica aí minha contribuição, ok?

3 – Dependência dos grandes centros urbanos. Antes que você mande um “até parece”, um esclarecimento. Eu vim da periferia. Moro em uma área suburbana até hoje. 50% dos problemas do ponto anterior vivi na prática durante meus anos de formação. Os outros 50%, ainda me acompanham no dia a dia. Mas, ainda assim, o molho empreendedor – levando-se em consideração aqui o viés digital-, é sempre aquele avesso à criatividade genuína dos brasileiros. Aquela original, não a do jeitinho.

Enfim, para não dizer que não falei de flores

Temos iniciativas louváveis, assim como centros de excelência em algumas de nossas universidades do país que criam e exportam tecnologia de ponta. Mas, quando se olha exclusivamente para o mercado digital, fica claro que sim, a crise existe. O lado bom é que ela é irmã gêmea da oportunidade.

Mas, encerrando a rápida crítica e a despeito de minha vontade e planos para seguir em frente e crescer, o que me parece é que estamos todos prontos para importar a próxima moda. Mas não para criar a nossa própria.

E sim, meu braço estará sempre à disposição para quem quiser encarar a bronca de mudar isso.