Ai que eu aqui não morro ai que eu aqui não fico.
O primeiro título que trago para vocês é o An Afro-Portuguese Odyssey que propõe uma leitura dos diversos dialetos de antigas colônias que professam a língua portuguesa como seu idioma pátrio. Terras como Cabo-verde, Angola, GuinéBissal, Moçambique e outras que ao misturarem elementos africanos, europeus e brasileiros produziram sons e experiências entre as mais curiosas.
O que me fez gostar deste CD (além de voltar a ouvir um CD nestes tempos de mp3) foi a possibilidade de aprender muito sobre nós mesmos, a saber, ouvintes de música brasileira. Por exemplo, como não entender o lamento do Samba quando se ouve Zé Inácio, na voz de Paulo Flores, nos contar a história de um encontro improvável que termina bem? Aos mais apressados que levantem um “Eduardo e Mônica”, vale a advertência: isso é coisa mais antiga. Tem a ver com aromas de periferia, de tempo que passa em outro ritmo, que histórias que se contam e se passam como tradições orais. Sinta-se, antes de num novo lugar, apenas levado de volta, nesta faixa que destaco em especial:
Zé Inácio (Paulo Flores)
Zé Inácio pega fácil, capina na esquina do mundo/ Dá o coro, Zé cabaret pega a estrada/ Vende haxixe e cocaína que a Odalina pagaOdalina tão menina trabalha na esquina da rua/ Vende o corpo, quando cai cala seu choro/ Ao gemer sufoca um grito, ai se é aqui que eu morro/ Ai se é aqui que eu fico, ai se é aqui que eu morro/ Ai se é aqui que eu fico
O Zé saiu da lavoura foi procurar outra esquina/ Deu de cara com a esperança do amor dessa menina, Odalina/ O Zé disse meu amor, que queres para trocar/ O andar de cama em cama braço em braço/ Pelo meu lar
E gemeu do seu gemer e beijou do seu beijar/ E a linda Odalina já amava só de amar/ Por querer calou seu choro, por prazer falou seu grito/ Ai que eu aqui não morro ai que eu aqui não fico/ Ai que eu aqui não morro ai que eu aqui não fico...
Lindo, não? Tem mais, muito mais...
An Afro-Portuguese Odyssey continua com excelentes momentos dos quais destaco ainda
- Cor Di Rosa, dos Mendes Brothers ( me soou como o Son Cubano...)
- O toque contemporâneo de Ruy Mingas em sua Homenagem a Liceu Vieira Dias, esta toda instrumental.
- Consdjo Di Garandis, não sei porque me parecendo algo da Colômbia...
- Bu Fidjo Femia, quase um mantra de Cabo-Verde com toques pra lá de sinuosos...