Como de costume, meu sábado é uma corrida contra o tempo prático e doméstico perdidos após cinco dias a frente dos projetos profissionais. E isso quer dizer que vou ao mercado, faço exames médicos, pago algumas contas e fecho a manhã com uma passada na feira livre do bairro para, entre outras coisas, comprar aipim.

Nesta última visita, resolvi observar mais atentamente ao processo criado involuntariamente pelo vendedor dessa raiz que nos foi apresentada pelos índios e que deu origem à deliciosas receitas.

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O que não sabe que sabe o Sr. Aipim

Ele começa querendo saber quantos quilos você vai levar. Respondida à questão ele escolhe, segundo ele, “as melhores peças para você que é freguês antigo”. Todos são. Se um Romulano pousasse hoje na Terra e, antes de invadir e subjugar toda a raça humana, quiesesse tomar uma cerveja com aipim frito e crocante, ele seria um freguês antigo, compreendeu?

Após selecionar as peças ele as pesa, ainda em estado bruto. Conferido o peso, parte para seu grande momento sob os holofotes dos presentes: descasca com uma precisão absurda. Inicia com um corte longitudinal, segue com mais alguns em espiral e finaliza com um picote mortal para quebrar cada raiz em cubos. Esse corte, com uma estocada final no centro de cada item para, segundo ele, não murchar; é seu segredo.

A operação não se conclui até que ele acomode a quantidade comprada em um ou mais saquinhos cheios de água, ideais para o transporte e até posterior congelamento. Já guardei por três meses sem que eles perdessem a crocância e sabor.

No momento no qual tirei a foto que ilustra esse post, pensei como coisas simples nos ensinam muito mais do que as complexas. E gostaria de falar sobre duas delas.

Pense sempre em seu cliente

A primeira é sobre como montar seu negócio focando sempre em seu cliente. Como bom vendedor de seu talento, o Sr. Aipim começa a relação comercial mesmerizando seu público. Repare que tanto eu, que o conheço a quase 10 anos, como o incauto que está só de passagem, receberemos o mesmo tratamento e atenção, ambos perfeitos.

Ele sabe que todos os clientes são importantes e, por isso, facilita sempre, oferecendo o peso que eu quero, a facilidade que eu quero e o produto que eu preciso, com prazo de garantia estendida, representada aqui pelo saquinho cheio de água.

Note que ele faz isso de forma tão natural e profissional que eu não reclamo em pagar a mais para que ele trate seu produto de forma diferenciada e me entregue algo acabado e pronto.

Um produto pensado para mim, um serviço prestado com capricho e eu não me incomodo de pagar mais por isso. Captou?

Mas tem outra coisa, ainda mais importante, que o Sr. Aipim nos ensina, sem saber que sabe.

Por mais operacional que seja, seu trabalho tem valor para seu cliente final

É muito comum falarmos bem de nossa atividade criativa quando observada sob um ângulo pontual. “Como é bacana o meu texto”, “Como sou criativo na hora de criar essa logomarca” , “Que delícia que ficou essa trilha que compus”.

Mas, basta colocarmos esse mesmo trabalho no nível de demanda que o mercado exige para passarmos instantaneamente a detestar aquilo que, há 10 minutos, nos fazia únicos. “Meu Deus, mais um artigo? Já foram 30 essa semana, esse cliente não sossega?“, ”Como assim outra versão do logo, não consegue aprovar não, é?”.

O Sr. Vendedor de Aipim, não. Ele parece em transe, cantando seu mantra eterno: “quantos-quilos-vou-selecionar-o-melhor-porque-você-é-meu-freguês”, fatiando em cortes longitudinais e espirais SEM NUNCA PERDER O FOCO.

A leitura imediatista vai revelar uma verdade superficial na qual ele é apenas um cara braçal, repetitivo e monótono.

Mas, se você observar com mais calma como fiz no último sábado, vai conseguir entender o segredo. Ele tem objetivo e missão: entregar o melhor Aipim do Bairro, não só para seu cliente, mas para quem dividir a próxima refeição com ele.

Você pensou até aqui que o objetivo do Sr. Aipim era vender raizes? Que nada. Ele quer mesmo é que alguém que nunca o viu, possa dizer: “Hummmm, que Aipim perfeito, onde você comprou?”

“Ah, naquele cara que corta na hora, ali na Feira, não tem como errar”, é a resposta mais provável.

O Sr. Aipim não sabe que sabe criar evangelistas de sua marca.