Questão difícil, viu? E olha que estou contratando gente há alguns anos e entendo como é complexa a tarefa em uma estrutura tradicional e, mais complicada ainda, em um ambiente volátil e sensível como o das startups e empresas de tecnologia.

Vi essa questão chegar até mim (além da experiência própria) através de um grande amigo meu que dia desses reclamava da debandada geral de seu time de desenvolvedores, “o mercado está prostituído, Mauro”, ele dizia. E fiquei rabiscando uns pensamentos…

Geração miojo: eles estão onde querem estar. É você que tem que ir até lá.

Geração miojo: eles estão onde querem estar. É você que tem que ir até lá.

Sim, não resta dúvida, as gerações alfabeto que seguiram a X (a minha), foram da Y de “só fazemos o que queremos”, passando pela Z, do “não fazemos nada” e chegando na atual, que alguns classificam como “miojo”, que quer tudo pronto e instantâneo. “…ah, e mastiga para mim”.

Sobre esse assunto eu recomendo o Braincast#110, sobre Snack Culture. Em uma hora e vinte e três minutos de programa,o time comandado pelo Carlos Merigo discute questões bem interessantes sobre esse imediatismo. Muito tempo, né? Tem resumo? 🙂

Mas, voltando: como e porque atrair talentos nesse cenário? Calma, onde existe pessimismo existe cansaço e preguiça. Com um pouco de atenção, conseguimos embasar, pelo menos teoricamente, a questão. E, quem sabe, enfrentá-la.

A massa é crítica e sinistra

Sou da turma que acredita que a web não tem a capacidade de demonizar coisas, ela apenas amplifica situações já existentes. Todo mundo tinha um cara na sua turma de colégio que não queria nada com a hora do Brasil.

Em minha época de banda de garagem era comum, por exemplo, a figura do “aspone de ensaio” que chegava e ficada lá no canto, espetava um cabo no mixer, trocava a caixa de som de lugar, mas não tirava um dó com sétima que fosse. Quando perguntavam em casa, claro, a resposta era “estava ensaiando com o pessoal, poxa. Vocês não acreditam em carreira musical?”

Pois me parece que a hiperconexão rápida e barada, a situação econômica do país (mal ou bem uma nova classe média surgiu) e o acesso a cursos rápidos e profissões idem, ajudaram a criar uma imensa nação de “aspones de ensaio”.

Ruidosos por serem maioria, acabam obscurecendo o talento genuíno que utilizou o mesmo cenário para “pivotar” sua vida, em um rasgo de protagonismo.

O paradoxo Janete Clair

É meio o que eu chamo de “paradoxo Janete Clair”. Se você nunca ouviu falar dela, lá vai. Foi uma de nossas maiores roteiristas, autora de clássicos como “Irmãos Coragem“, “Pecado Capital“, “O Astro” e “Pai Herói” . Ela tinha por hábito nos entregar personagens tão arquetípicos que você meio que já adivinhava: o rico seria infeliz e mal e o pobre, nobre e gentil.

Ligando os pontos, como um Steve Jobs discursando em Stanford: como a massa crítica de “aspones de ensaio” é ruidosa e generalizada, partimos do princípio que todos os integrantes de sua geração são, assim, imediatistas, rasos, sem talento ou vocação para nada. Percebe que, agindo assim, somos nós os maiores errados?

Eu prefiro acreditar que vale a pena procurar o talento que utilizou sua conexão barata e rápida, um país sem o caos econômico dos anos 80 e 90, a farta opção de referências e formação e criou algo novo. Ou, potencialmente está pronto para isso. Eles existem, só estão soterrados por tanta gente falando ao mesmo tempo.

Eu estou onde quero estar

Onde encontrar esse pessoal? Essa sim é a grande questão. Uma coisa é certa: empresas têm os mais variados perfis e missões e não podem depender 100% dos bancos de currículos e das redes sociais de vagas e carreira. Não se quiserem inovar.

Eu prefiro acreditar que vale a pena procurar o talento que utilizou sua conexão barata e rápida, um país sem o caos econômico dos anos 80 e 90, a farta opção de referências e formação e criou algo novoAcontece que, livres e dotados de um ferramental bem maior do que qualquer POPULAÇÃO INTEIRA de 100 anos atrás, cada talento desse está somente onde quer estar. Pelo menos os genuínos. Então, se você é um gestor de RH ou coisa que o valha, eu começaria a procurar “fora da caixa”. Algumas sugestões:

Comunidades open-source: você criou um aplicativo que resolve um grande problema, mas não tem um financiador ou, ainda, quer que ele seja um bem comum. O que você faz? Sobe essa sua ideia para ambientes como o Git-Hub, onde disponibiliza o código de sua criação para que a comunidade use, teste e opine. Muita coisa boa surgiu em ambiente como esses, muita gente boa transita por ele também.

Plataformas de crowdfunding: aqueles com uma pegada mais “business” descobriram que podem fazer verdadeiras “vaquinhas virtuais” para financiar suas ideias. Casos históricos como o “Oculus Rift” – recentemente comprado pelo Facebook por 2 bilhões de dólares, começaram no Kickstarter, o site que lidera o movimento. Indie Go-Go e o nacional Catarse estão na mesma levada, agregando valores financeiros e humanos como em poucos momentos na história humana.

No YouTube: você já foi impactado por “vlogers” sem saber. Isso levando em consideração que esse post mira um público mais amplo. Se você faz parte da comunidade digital de produtores de conteúdo você provavelmente já foi até além e produziu alguma coisa, mesmo que básica. Enfim, o YouTube, que um dia foi um site de compartilhamento de vídeos, é hoje uma praça pública de manifestações, juckebox para alguns e plataforma de expressão artísticas para outros. Os donos dos “canais” hoje produzem conteúdo sobre qualquer assunto, de humor à ciência, passando por dicas de nutrição. Protagonistas de seus próprios shows, são fonte de talento para diversos projetos. Inclusive os de sua empresa.

Nas periferias: se você conseguir se manter imune a programas que vendem um estereótipo glamourizado de uma periferia sempre cantante e dançante, vai ganhar muitos pontos indo buscar talentos entre ONGs e grupos comunitários na periferia de sua cidade. Comece oferecendo um programa de estágio, identifique talentos que aprenderam a reinventar o mundo desde que nasceram.

Concluindo

Não tenho qualquer intenção de encerrar o assunto por aqui. Ele pode e deve render comentários e continuações. Mas, um bom ponto de partida é justamente aquele em que você finaliza a leitura dessa post e entende três pontos:

1 – Existe uma geração de realizadores que utilizou o melhor das ferramentas atuais para crescer. E eles têm muito potencial.

2 – A grande maioria, aquela que gerou a massa crítica para a internet mundial (e brasileira) é barulhenta e acaba afastando profissionais com grande potencial e seus recrutadores

3 – Para separar um do outro você tem que ir a outros lugares, saindo de sua zona de conforto enquanto gestor de pessoas, e aprendendo a falar a língua desse seu público

Enfim, é isso. O que acham? Em que time preferem estar?