O problema da auto-publicação.

At the Bayntun-Riviere bindery
Creative Commons License photo credit: jdr3505 / Jim Rosebery

Antes de começar, preciso deixar claro que existem excelentes autores que publicam no esquema da auto-publicação. O livro ser integralmente ou parcialmente pago pelo autor não tem nenhuma relação com o seu conteúdo. Este artigo é apenas uma alerta de que não basta escrever e pagar a impressão. Há muito mais entre o Word e a gráfica do que crê a vã filosofia.

A publicação via editor é melhor não porque o editor seja essa maravilha, não, mas porque submete o texto a inúmeras leituras, revisões e a todo um trabalho editorial que na esmagadora maioria dos casos não existe na auto-publicação. O problema é que a auto-publicação é uma prestação de serviços e, como em qualquer lugar, o cliente tem sempre razão. Na hora em que o autor se coloca como cliente e não como uma parte do conjunto necessário para fazer um livro (a parte mais importante, sem dúvida alguma, mas uma parte – carro não é só motor e outras analogias) o autor perde completamente o discernimento do texto.

Dando um exemplo (existem muitos durante toda a linha de produção de um livro): leitores-beta são leitores profissionais (às vezes até mesmo especializados em análise literária) e não aquele seu amigo super legal e inteligente que jurou de pés juntos que faria uma leitura não-tendenciosa do seu livro.

A não ser, claro, que você seja amigo de um leitor profissional do porte de um Eric Novello da vida, mas aí ele mesmo com certeza já te falou isso tudo. É melhor inclusive que seja alguém que não te conhece pessoalmente. A separação entre o texto e o que o leitor conhece do autor é uma tarefa que exige muito tempo de estrada e não é para qualquer um. E isso estou falando só da parte da primeira leitura especializada, não estou nem falando de adequação de discurso, de colocação no mercado, de nada disso…

Distribuição e Design

Outro problema sério é a distribuição. Se você só tem um livro – por melhor que seja – para comercializar, os distribuidores sequer te atendem. A editora, por outro lado, liga para o distribuidor e, depois do ok do produtor gráfico da editora, requisita que o caminhão busque os exemplares direto na gráfica. Caminhão, não aquele carro com um enorme porta-malas da sua prima.

O trabalho de design também não é simples. Não, não serve aquele arquivo seu do Word tão lindo já no formato de livro, com até números de páginas. E não, aquela sua amiga artista plástica que tem um clima assim tão legal, tão próximo do livro, que entendeu tudo, não, ela não pode fazer a sua capa. Quer dizer, nada contra ela fornecer uma imagem para a capa, mas capa não é só uma imagem bonita e chamativa com o título grande.

Repare que nem estou falando de copy-desk e revisão. Copy-desk, aliás, é outra questão. O copy-desk está trabalhando a favor do seu texto, não contra. Não mande um peixe enrolado no jornal para a casa do sujeito só porque ele sugeriu cortar 2 parágrafos do seu texto. É claro que copy-desk erra, assim como revisor, assim como o designer, assim como o editor e, pasme, assim como o autor. Não precisa se angustiar, basta conversar e explicar o seu ponto de vista. E, igualmente importante, ouvir o ponto de vista do outro.

O problema da auto-publicação é que, na maioria das vezes, não há troca. É apenas o autor pagando para uma gráfica imprimir o texto. E o produto final sempre reflete o cuidado que se teve com ele. O leitor não é burro. Não o trate como tal.

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Publicado em 28/10/2009 às 6:56 na categoria Inspiração. Acompanhe os comentários pelo Feed. Deixe seu comentário, ou um trackback do seu site.





5 Comentários para “O problema da auto-publicação.”

  1. Barbara Axt -

    Carol, concordo infinitamente com tudo que voce escreveu. No meu trabalho de jornalista eu vejo como um editor eh importante para melhorar o meu texto. Com livro entao, soh imagino que esse povo todo seja muito mais.

    Mas ai eu me pergunto: se eu nao conseguir cair nas gracas de um agente e/ou de uma editora, como eu faco? A maior parte dos escritores nao tem condicoes de pagar do proprio bolso bons profissionais para ler, analisar e editar seu livro. Eu certamente nao posso pagar um BOM editor. E ai, comofas//

  2. Carolina Vigna-Marú -

    Baxt,

    Na boa? Não faz.

    É tão queima-filme um livro mal-trabalhado na praça que não vale a pena. Transforma em qualquer outra coisa: blog, animação, curta-metragem, o que for. Botar na praça um livro sem passar por leitores-beta, copy-desk e pelo menos uma revisão decente é dar um tiro no pé. Vai gastar uma grana considerável de papel e gráfica, não vai distribuir, não vai vender, e quando escrever um segundo aquele vai ser a pedra no sapato na hora de apresentar outro texto a editores.

    Às vezes é melhor “sentar em cima” de um texto e esperar outro momento do que partir para uma coisa dessas.

    Agora, esses profissionais são baratinhos. Se é importante para o autor publicar aquele texto, deixa de tomar chopp por uns 2 meses e paga bons profissionais para cuidar do livro.

    Existem inclusive excelentes casas editoriais que fazem este trabalho. Conheço 2 (existem muitas, mas só posso recomendar quem eu efetivamente conheço, ok?): A Jogo de Amarelinha e a Ofício Editorial. Fazem um trabalho primoroso, inclusive ajudando o autor diretamente na busca de editoras, gráficas, etc.

    Isso é que nem consertar carro. Se você não é mecânico de verdade, não faça, só vai piorar as coisas e acabar gastando mais dinheiro.

    Bjs (e sorry)

  3. Vilaca -

    ‘Não mande um peixe enrolado no jornal para a casa do sujeito só porque ele sugeriu cortar 2 parágrafos do seu texto.’, cara, muito engraçado, hilário. Senso de humor dez e matéria muito bem informativa para quem está se aventurando em escrever. Muito boa matéria.

  4. Carolina Vigna-Marú -

    Vilaca,
    :D
    Fico feliz que você tenha gostado, de coração.
    Obrigada!

  5. Sobre Demanda & Auto-publicação « Eduardo R. V. -

    [...] | Design Gráfico. Qual o verdadeiro problema da auto-publicação?, em Diggs | Design Gráfico. O problema da auto-publicação, em [...]

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Carolina Vigna-Marú

Editora

Editora, designer e ilustradora. É também amante de animação e fotografia. Bio | Mande sua dúvida

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