Jornalista: você é um especialista em generalidades?

Que tal redigir um artigo sobre um novo modelo de saco de dormir de manhã; entrevistar um personal trainner a tarde e, para fechar bem, a noite produzir um passo a passo sobre a mais moderna máquina de costura? Interessou? Ou seu lance com o jornalismo é a área cultural?

typing by candle light
Creative Commons License photo credit: eriK Stabile

Uma das coisas que mais me irritava na faculdade era aquela galera que confundia jornalismo com novela. Tudo bem, a Fátima Bernardes sempre aparece bela e faceira na tela, mas ao contrário do que muitos estudantes pensam, ela não é enfeite e investiu – junto com o maridão e a equipe – um dia inteiro de trabalho para poucos minutos de notícias.

Participar de uma coletiva com o Kaká, entrevistar o José Mayer ou o Caetano Veloso, não fará de um deles seu companheiro de pelada no domingo. Trabalhar numa editoria de cultura é bem mais do que ganhar ingressos, colecionar autógrafos e xavecar ex-BBBs.

Além disso, as vagas em qualquer setor são bem escassas então é melhor estar preparado para fazer, e fazer bem, um pouco de tudo. Com a queda da exigência do diploma para exercer a profissão a concorrência aumentou muito. E os publicitários estão aí para comprovar que a fórmula para conquistar e manter seu lugar no mercado de trabalho é mostrar a que veio.

Você é o que você rende

Você pode colecionar diplomas e certificados ou ser afilhado do dono. Pouco importa. Numa sociedade de resultados o que vale é o que você produz e quanto isso rende para você, seus patrões ou clientes.

Se você atende a necessidade do seu público, provavelmente, será valorizado por isso. Caso isso não ocorra, prepare o portfólio e busque o reconhecimento em outro lugar. Pode ser outra empresa ou um freela. Só não se esqueça do velho ditado: “mas vale um na mão do que dois voando”. Antes de qualquer mudança é necessário avaliar as implicações e saber como “se garantir” caso o plano inicial não dê certo.

Se você não tem preferência por área de atuação ou reconhece que nem sempre o job é sobre o tema que você domina é hora de se especializar no geral. O raciocínio é simples: você entrou ou pretende entrar nesse universo de freela. Isso exige aptidão para fazer várias coisas ao mesmo tempo ou você acha que o síndico vai esperar você terminar o projeto para tocar a campainha? Então, se você já sabe fazer coisas diferentes simultaneamente não há dificuldades em redigir sobre um pouco de tudo.

Confesso, talvez existam algumas dificuldades ‘mínimas’. Mas não é preciso ficar nervoso, também existe o CarreiraSolo.

Por onde começar?

Trabalhando com tantos temas diferentes todos os dias é normal que de vez em quando falte inspiração para começar. Sempre há um assunto no qual você é bom e tem mais facilidade para escrever. Isso pode acontecer porque você trabalhou um longo período num jornal do sindicato dos juristas e acabou absorvendo até o que não queria; ou, simplesmente, porque você é fascinado por esportes e sabe recitar de olhos fechados os times de futebol americano em atuação no Brasil. Não importa a causa, o que vale é que 1/3 do trabalho será executado facilmente. Quanto aos temas que você desconhece… Informe-se! Aprenda!

As (falsas) promessas de São Google

São Google esta aí para responder as perguntas mais esdrúxulas, seria muita injustiça do olimpo não disponibilizar um site confiável sobre o que você precisa escrever. Use o bom senso: desatualização; erros de português; textos mal redigidos; poucos acessos, links ou comentários, são pistas de que a página pode não ser tão séria quanto deveria. E, mesmo quando estiver convencido de que a fonte é segura, verifique em outros canais, apenas por garantia.

Muitas vezes, ainda na primeira página que apresenta os resultados da busca é possível visualizar a mesma frase iniciando o texto em diferentes origens. Ninguém se preocupa em disfarçar a apropriação indébita. A utilização do Ctrl C/ Ctrl V ocorre em larga escala, demonstrando a penúria de idéias. Não caia nessa armadilha.

Leia, entenda, estude e só então escreva sobre o tema. Seja competente. Não utilize sinônimos apenas para diferenciar seu texto do original. Mostre que você é um redator, não um repetidor.

Onde me inspiro?

 O papo é manjado, mas continua valendo. Jornais, revistas, livros técnicos, literatura, filmes, músicas, bate-papo com os amigos (ao vivo)… São essas informações que irão abastecer sua mente para que você possa transitar com autonomia entre jobs sobre hds externo, potes de plástico e carrinhos de bebê. Não menospreze a informação que te diverte.

Com essas referências será mais fácil por em dúvida o que você encontra nas suas pesquisas para o trabalho; novas palavras serão incluídas no seu vocabulário e sua vivacidade será transmitida nas entrelinhas.

Lembre-se de que o mundo é ainda maior e mais variado do que a internet. Amplie sua compreensão. Converse informalmente com quem entende do assunto que para você é tão complexo, assim, será bem mais fácil entender e tirar dúvidas.

Quando for solicitada uma entrevista, dê preferência a quem dispõe de assessoria de imprensa. O assessor de imprensa sério conhece a importância de cumprir prazos e isso já alivia 50% da sua dor de cabeça, porque, provavelmente, não haverá desculpas ou enrolação.

Além disso, o entrevistado que conta com uma assessoria será orientado previamente sobre o foco da publicação, os objetivos da entrevista, enfim, o papo não sairá dos trilhos e isso poupa muito tempo na hora da redação.

Ajuste o foco

Seu cliente tem um perfil e parte da aprovação do trabalho produzido esta vinculada a compreensão deste estilo. Diretores austeros podem ficar incomodados com textos engraçadinhos; empresas que ambicionam uma aproximação com o grande público terão ressalvas com artigos muito técnicos… É preciso entender a proposta inerente a cada job para incorporar a atitude do projeto e conquistar a aprovação.

Não há garantias

Você pesquisou até em sites de entidades internacionais, conversou com dois ou três feras no assunto, checou as informações na enciclopédia da sua mãe, trabalhou o texto com rigor para adequá-lo ao gosto do cliente e, ainda sim, o job voltou com várias solicitações de mudança… Seja bem vindo ao mundo real.

Isso acontece mesmo e com mais freqüência do que qualquer freela gostaria porque cada trabalho que volta representa menos tempo para uma nova tarefa. Então, o caso é arregaçar as mangas e encarar as opções:

  • Você pode seguir tudo a risca, corromper a idéia inicial do texto e se livrar do problema.
  • Você pode recusar todas as mudanças, bater o pé pelo seu ‘direito de autor’ e deixar que o cliente contrate outro na próxima vez.
  • Você pode modificar o que for plausível e argumentar claramente em defesa das suas idéias.

A não ser que o seu cliente/chefe seja o Briatore sugiro a terceira opção. O diálogo irá ajudá-lo não só na aprovação do texto como também na compreensão da filosofia do cliente e na ampliação do seu conhecimento. Mas não seja insistente ou desagradável, saiba ponderar o momento certo para conversar.

E se a minha mente travar?

Para evitar que tanta informação cause um bloqueio ou prejudique seu desempenho é bom ter uma forma de extravasar o que absorveu profissionalmente. Algumas pessoas acreditam que sem esvaziar a mente após um projeto não há comum novas idéias surgirem.

Pelo sim, pelo não muita gente pedala, dança, dorme ou acampa para exorcizar. Após dias e dias redigindo sobre qualquer coisa eu prefiro aliviar a mente… escrevendo. Postando meus pensamentos inúteis num blog ganho espaço na mente para os projetos que ainda estão por vir.

Blog Widget by LinkWithin

Publicado em 28/09/2009 às 7:11 na categoria Destaques, Inspiração. Acompanhe os comentários pelo Feed. Deixe seu comentário, ou um trackback do seu site.





Um Comentário para “Jornalista: você é um especialista em generalidades?”

  1. Links salvos de setembro 30, 2009 até outubro 3, 2009 « Thiago Moreira -

    [...] Jornalista: você é um especialista em generalidades? – Que tal redigir um artigo sobre um novo modelo de saco de dormir de manhã; entrevistar um personal trainner a tarde e, para fechar bem, a noite produzir um passo a passo sobre a mais moderna máquina de costura? Interessou? Ou seu lance com o jornalismo é a área cultural? [...]

Deixe seu comentário







Luciana Ribeiro

Jornalista

Jornalista, pós-graduada em Marketing atua como freelancer para o setor de saúde. Bio | Mande sua dúvida

Leia também





Contém Conteúdo on Facebook







Música

Alison Krauss. Discografia, estilo e Grammy em 2009 para bluegrass

Alison Krauss. Discografia, estilo e Grammy em 2009 para bluegrass

Outro dia zapeando esbarrei num canal obscuro com um show de Alison Krauss and Union Station. Gostei antes de saber que se chamava assim, pelo simples fato de ser fã de bluegrass. E, ao avaliar a discografia e virtuosismo da banda, novas surpresas aconteceram.
1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars
Loading ... Loading …

Mais »

Cinema

WANTED. Comparamos HQ e Filme num festival de referências.

WANTED. Comparamos HQ e Filme num festival de referências.

Mark Millar cria um mundo de super-vilões, onde todos os heróis foram mortos. É a esse mundo que o pai de Wesley Gibbons pertencia, antes de ser morto. Agora cabe ao pacato Wesley assumir o lugar de seu pai nesse mundo insano.

Mais »

Livros

Noturno de Guillermo del Toro e os DVDs de Papel.

Noturno de Guillermo del Toro e os DVDs de Papel.

Vez por outra somos visitados por DVDs de papel. Eles surgem vagarosamente por entre prateleiras e bancas de “mais vendidos” desde o dia de seu lançamento nas mega-livrarias dos shoppings ou aeroportos, prometendo algumas horas de entretenimento fácil. Se o que virá será suspense, terror, comédia ou drama, pouco importa. Os DVDs de papel são como buracos-negros, grandes pólos atratores de leitores, crítica e resenhas avulsas
1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars
Loading ... Loading …

Mais »

Inspiração

Procrastinação com toda animação na Videoteca Carreirasolo#89

Procrastinação com toda animação na Videoteca Carreirasolo#89

Procrastinação é tentar encontrar um jeito mais difícil para fazer uma coisa simples, é não terminar algo, ou, antes ter preguiça de começar qualquer coisa. São as pérolas que você vai encontrar nesta animação criada pelo artista londrino Johnny Kelly

Mais »