Você achava chato, mas ainda bem que sua mãe ficava no seu pé para você comer toda a comida do prato, especialmente as verduras. Toda mãe quer que seus filhos comam direito, ainda que não saibam muito bem como conseguir isso. “Eat your vegetables”, dizem também as mães americanas, mesmo deixando que seus pimpolhos comam mais batatas fritas e tomem mais refrigerante do que deveriam.

O grande problema é que não foi só a sua mãe que mandou você comer. Os seus amigos também interferiram na sua alimentação quando compartilharam com você aquele pacote de chips. Os comerciais que você via no intervalo dos desenhos também provocaram as suas vontades. A posição evidente em que ficam os doces no balcão da padaria também mandou sua mensagem ao seu cérebro faminto.

O fato é que você passou tanto tempo recebendo recados de que é normal pular um almoço completo e outro para enganar a fome com um salgado com queijo escorrendo ou uma barra de doce sabor chocolate (leia as últimas notícias sobre a enganação na quantidade de cacau no que chamamos de chocolate) que a chance é grande de você não ter parado para perceber que sua alimentação deixou de ser saudável faz tempo.

E você pode querer jogar toda a culpa no feminismo. Porque, pombas, antes as mulheres ficavam em casa preparando café da manhã, almoço e jantar para a família inteira, e desde que inventaram a pílula elas desencanaram de pilotar fogão e deram origem a esse lucrativo mercado da comida congelada.

Vai saber se o feminismo não foi inventando pelo mesmo cara que criou o micro-ondas? Ok, essa é uma hipótese estúpida, mas é verdade que a indústria de alimentos (e acho que a de micro-ondas também) lucra uma barbaridade com essa história de a mulher trabalhar fora de casa.

Ah, perdão, você trabalha (muito) dentro de casa e mesmo assim não chega perto de panela, né? Eu entendo. Quer dizer, eu sou mulher, filha de uma quase-feminista que não me ensinou a cozinhar e até hoje (já casei e já passei dos 30) não consegui fazer um feijão que possa ser chamado de gostoso.

Logo, entendo que você não tenha motivação para fazer o almoço e o jantar todo dia. Eu também não tenho. Mas mesmo assim consigo me alimentar bem direitinho e faço exercícios físicos regularmente, e além disso escrevo sobre saúde há um bocado de tempo. Isso, acredito, me autoriza a oferecer aqui algumas sugestões.

eatwell

1. Use os fins de semana para encher a geladeira. É quando você tem mais tempo livre, não é? É justamente por isso que o fim de semana é a melhor hora de ir ao supermercado. Senão você finge que vai conseguir fazer isso no meio da semana, acaba não indo coisa nenhuma e se acha no direito de matar a fome com qualquer coisa. Erro número um.

2. Faça uma compra inteligente, ou seja, saudável e organizada. Primeiro, equipe o carrinho com duas caixas de papelão: uma grande, outra pequena. Na grande, você coloca frutas, verduras, legumes, carnes, aves, pescados, ovos, pão integral, leite, grãos, sementes e tudo que for natural e integral. Na caixa pequena você coloca o que for embalado e absolutamente fundamental para sua sobrevivência. Isso inclui a cerveja e o vinho. De preferência, salgadinhos, falsos chocolates e refrigerantes devem passar longe do seu carrinho. Esqueça que eles existem. Deixe isso para os fracos.

3. Tenha uma bolsa térmica e use-a para carregar as comidas de geladeira no supermercado.

4. Aprenda a diferenciar comida de imitação de comida. Iogurte é branco. Se for colorido, é outra coisa. Suco não tem água nem açúcar; se tiver um dos dois, é outra coisa. Pão integral é feito com farinha integral. Se for feito com farinha branca, é enganação. Achocolatado é açúcar marrom; se quer chocolate no leite, compre chocolate em pó de verdade, não achocolatado. Cereal é grão; se for mistura de farinhas adoçada, é outra coisa.

5. Distribua sua compra entre a geladeira e o armário (ou dispensa) deixando as coisas mais frescas mais à vista e as coisas embaladas mais escondidas. Assim, quando bater aquela gula fome traiçoeira, você pega a melhor opção.

6. Tenha um freezer, um fogão e um micro-ondas. Use o micro-ondas para descongelar os alimentos frescos que você comprou, não produtos que já vêm congelados. Não coma pipoca de micro-ondas, que é quase sinônimo de gordura trans.

7. Use o mesmo fim de semana para deixar sua comida pronta. Por exemplo, separe os filés de frango e/ou peixe um a um em saquinhos limpos (à venda nos supermercados) e congele.

8. Pare de acreditar que comida rápida é comida embalada. Brócolis cozidos no vapor ficam prontos em 5 minutos, pouco menos que o tempo que se leva para grelhar um filé de Saint Peter (é um peixe, caso não saiba).

9. Use a internet (essa sua amiga tão inseparável) para buscar receitas de comidas saudáveis rápidas de fazer. Será muita incoerência da sua parte fingir que esse conhecimento todo não está disponível a um clique de distância.

10. Use sua criatividade para variar o cardápio quando a fome vem com força. Frutas com granola, iogurte de verdade, pão integral com queijo, frutas assadas no micro-ondas, pipoca de verdade, torradas com guacamole, omelete: tudo isso são comidas decentes que qualquer cidadão pós-feminista é capaz de fazer. Chega de desculpas.

Sobre este post

post_fran

A ideia para este post nasceu com papos que tivemos com a Francine Lima, antiga leitora aqui no Carreirasolo e que tem um projeto superbacana chamado “Do Campo à Mesa”.

O projeto por enquanto roda em uma Fan Page do Facebook de mesmo nome e, em breve, terá vídeos e um blog dedicados ao tema. Trocamos uma ideia rápida sobre alimentação saudável com a Fran. Leiam!

Carreirasolo: Qual a motivação para criar uma página sobre alimentação saudável?

Francine: Essa é uma preocupação minha desde pelo menos a adolescência. Eu estranhava que as minhas amigas tomassem leite com achocolatado em vez de chocolate em pó, como eu fazia. Achava aquilo horrível de doce. A coisa piorou quando vim morar em Sampa, longe dos pais, aos 17 anos. Como eu não sabia cozinhar, me rendi temporariamente aos miojos da vida, como quase todo mundo na faculdade. Mas eu achava péssimo.

Tinha gente que jantava biscoito recheado, e eu ficava chocada. Continuei não sabendo cozinhar quase nada, mas passei a observar tudo que as pessoas comiam. Tipo mães sem noção dando coca-cola pra bebê na mamadeira ou adulto jogando toneladas de açúcar num copo de suco. Desde meu TCC na graduação (“Comento de Mentirinha”), nunca mais parei de escrever sobre isso.

Carreirasolo: Qual o objetivo final da iniciativa?

Francine: Meu objetivo é ampliar a noção que as pessoas têm sobre o que comem. Sabe o velho ditado “Você é o que você come”? Eu adaptei ele para “Você é o que você sabe sobre o que come”, porque, se a gente soubesse de verdade como é feita nossa comida, provavelmente deixaria de consumir muita coisa que a gente acha OK, e nossa cultura alimentar mudaria.

A informação é importante porque, embora as pessoas acreditem que têm liberdade de escolha, o que a gente escolhe comer não é exatamente uma escolha nossa. Antes de a gente optar por um item no supermercado, os agricultores, os governantes, a indústria, o varejo, os publicitários e até a imprensa decidiram antes o que era melhor (para eles). E boa parte do que esses caras estão empurrando pra gente é produto comestível (??) da pior qualidade, pra não dizer outra coisa. E o resultado é a crescente obesidade mundial e as doenças crônicas que matam pessoas.

Carreirasolo:Próximos passos do projeto, quais são?

Francine: Comecei escrevendo reportagens para revistas. Depois parti para um blog e o Twitter, e então o Facebook. Os próximos projetos envolvem um canal no YouTube e formação de grupos para visitar locais de produção de alimentos. Eu quero cercar vocês por todos os lados.

Gostou das dicas? Pensou em melhorar a qualidade de sua alimentação? Ficou cheio de dúvidas? Envie um e-mail para carreirasolo.org@gmail.com e a Francine responde!