Slumdog Millionaire leva oito Oscar e uma questão no ar. Responda!
Surpresa, espanto, dúvida, assombro. Emoções que percorreram a última entrega do Oscar, que aqui caiu num domingo de carnaval, quando o bicho-papão da noite foi o bollywood movie Slumdog Millionaire.
A possibilidade de leituras que esse momento nos traz, vão além do cinema. Tomemos, por exemplo, a produção da festa, notadamente menos dispendiosa que em anos anteriores.
Teriam os produtores da academia sido pegos pela crise? Claro que não. O fato é que, com alguns descontos, a indústria do cinema, que tradicionalmente nos vende ilusões paleativas há mais de 100 anos, tem seu pezinho ali na realidade.
E se a realidade da vez é uma crise (real, sem dúvida), porque não embarcar no tema? Podemos dizer: o tema da entrega do Oscar esse ano foi a crise. E isso acabou se refletindo na premiação de Slumdog Millionaire.
Uma cidade de milhares de deuses
Que aliás tem um roteiro que você já viu: menino de favela se vira aqui e ali e tem um grande amor e um irmão que por sua vez escolheu o lado mais rápido para alcançar alguma posição na vida, o crime. Mas nosso herói é batalhador e tem lá seus talentos.
O máximo que se permite é ser um “malandro do bem” enganando aqui e ali turistas que visitam sua cidade natal. Tudo isso filmado e mini flash backs indo e vindo entre o momento de ruptura do roteiro, uma espécie de “Show do Milhão” e a infância pobre.
Troque Jacarepaguá por Bombaim e você tem, em vez de Cidade de Deus, o ganhador do Oscar de melhor filme.
E é aí que a vitória de Slumdog Millionaire traz sua leitura mais interessante. É para mim o sussurro de uma indústria: “Nós tememos os seus call centers que tentam nos enganar que nos atendem do bairro ao lado; tememos sua capacidade de remexer e reiventar nossos programas de TV e nosso estilo de vida; tememos até nos tornarmos no futuro o que vocês são hoje, numa insuspeita – mas não impossível-, troca de papéis entre nossas nações”.
Em outras épocas bastaria fagocitar essa avalanche de avanços na Índia, Brasil, China e Russia para, através dessa própria indústria cultural, perpetuar ciclos de dominação.
Será essa a alternativa correta agora?
Publicado em 24/02/2009 às 5:11 na categoria Cinema. Acompanhe os comentários pelo Feed. Deixe seu comentário, ou um trackback do seu site.











Em termos de Índia, é muito legal pq não fica pegando pelo exótico, mas pelo que há de comum nesse “mundo que é uma favela”;
Ao invés de falar de dalits, fala de muçulmanos na Índia – que talvez sejam ainda mais ferrados, no sentido que nem o papel de pária lhes resta;
(aliás, isto passou batido no noticiário – sim os protagonistas do FILME VENCEDOR DO OSCAR SÂO MUÇULMANOS)
O roteiro é sensacional. Usar o show do milhão para contar uma história com narrativa em 3 tempos (passado longínquo, noite passada na TV e presente na delegacia) torna palatável uma narrativa complexa – não tanto quanto um Amnésia, mas complexa.
(aliás, a uma certa altura me lembrei de Coração Satanico. Dado que o cara estava passando a vida a limpo no Show do Milhão, coloque De Niro ou Pacino na cadeira do Silvio Santos e terás a antesala do Inferno!)
Tecnicamente, o filme é como um disco da Marina Lima. Uma enciclopédia estética do que se fez de interessante nos últimos anos. Tem a estética da pobreza, comum a filmes afegãos e iranianos tipo Central do Brasil – crianças tentando sobreviver num mundo exótico mas porém “miséria é miséria em qquer canto” – mas não exagera então não fica piegas. Tem a estética da violência, típica do Tarantino e que Cidade de Deus elevou a um outro patamar – mas é uma violência mais noir e dramática do que videoclipada. As cenas de ação, luta e perseguição são filmadas no estilo Identidade Bourne – que influencia a estética dos filmes de ação, basta conferir os novos 007 e Batman. E tem uma história de amor inverossímel que é o que dá o tom de fábula.
E este tom fabulesco tem tudo a ver com um contexto de crise. Diferente de Cidade de deus, o protagonista não é o Dadinho. Salim, aliás, tem uma redenção clássica (clichê?). E Jamal é um herói como há muito tempo não se vê. Obstinado, perseverante, puro mas não ingênuo. Redenção, pureza, perseverança e final feliz – é tudo que precisamos para atravessar esta crise, certo?
Slumdog Millionaire – QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?…
O filme foi dirigido por Danny Boyle e escrito por Simon Beaufoy, tendo como atores principais Dev Patel e Freida Pinto. O filme foi lançado em 12 de dezembro de 2008, pela Fox Searchlight e Warner Bros, e foi vencedor de oito Oscars, sete BAFTA’…