Que livros deveria ler?
A maioria das pessoas imaginam que aqueles profissionais extremamente bem-sucedidos o são em razão de sua incrível competência técnica. Competência essa adquirida pela leitura ininterrupta de centenas de livros de sua própria área, dezenas de cursos de especialização etc. Em suma, o senso comum diz que a leitura de livros técnicos é indispensável para se tornar um bom profissional. Data venia (juridiquês 1), não é tão simples assim.
Independentemente da sua área de atuação, se você permanece nela, posso supor, ao menos, que você é mediano na sua profissão, pois do contrário já teria buscado alternativas. E que, claro, você possui conhecimento técnico suficiente, afinal, você é mediano.
O que quero dizer é que é obrigação do profissional possuir conhecimento técnico. Isso é pressuposto para ele estar no mercado, ora essa. Por mercado, estou excluindo serviço público, ok?
Sendo assim, se um dia alguém te perguntar “Que livros devo ler?” e você indicar apenas livros técnicos da área da criatura indômita, desculpe dizer, mas você não está contribuindo em nada para a vida desse alguém.
Ora, a menos que o pedido de indicação seja para construir uma bibliografia adequada para a feitura de um artigo técnico ou uma monografia, esse alguém está pedindo orientações para que se torne um bom profissional, alguém de destaque nessa vida. E se esse alguém sentiu essa necessidade, significa que ele percebeu que simplesmente aprimorar-se na área técnica não será suficiente. Essa simples constatação já o torna além do medíocre e uma resposta simplória o fará parecer… simplório!
O profissional competente deve ser, na minha humilde opinião (IMHO – segundo @aguarras), um especialista generalista.
Como assim?
Ele deve, sim, concentrar-se em uma área técnica, para não perder o foco de seu trabalho (dói na alma os advogados criminalistas, civilistas, trabalhistas, tiro-sua-multa-e-trago-o-ente-amado-amarrado-na-palma-da-mão), mas, e aqui está a chave, não se restringir a uma única visão, a uma única abordagem!
Para exemplificar, vamos trabalhar com uma situação-caso da minha área, o que por si só já vai contribuir para sua formação generalista
. Vejamos pela óptica de um Juiz… melhor, um Ministro do STF. Você, jovem promissor advogado, é chamado para fazer uma sustentação oral. Na sustentação oral, quando o processo do seu cliente é colocado em pauta para julgamento, você é chamado para “apresentar o seu caso” para os Ministros.
Você tem duas escolhas nesse momento:
1. Tentar mostrar pros Ministros todos os aspectos jurídicos, doutrinários, jurisprudenciais DOMAL que você conseguir pensar. Juntar todos aqueles autores de milnovecentosepedralascada, acrescentar uma pitada de decisões de outros Tribunais ou, MELHOR, do PRÓPRIO STF e mostrar pros Ministros o quanto você sabe e domina a matéria e veio ali para esclarecer as coisas.
Um pequeno parênteses… suponhamos que todos aqueles Ministros chegaram onde estão porque, bem… porque estudaram muito e demonstraram “notório saber jurídico”, além da “ilibada reputação”. Eles provavelmente tem 40 anos de profissão a mais do que você tem de idade.
Eles já leram todos os livros, eles conhecem a própria jurisprudência. E mais: eles provavelmente já escreveram livros sobre o mesmíssimo assunto que você agora busca esclarecer!
Você acha mesmo que, por essa abordagem, trará alguma novidade para os autos?
2. Supor que os Ministros não estão onde estão à toa e trazer para os autos uma nova óptica!
Vamos tentar não falar de Direito!
Vejam bem, não estou sugerindo que você tome o tempo deles pra ficar de bate-papo inútil, porém, se você tem a oportunidade de falar para eles sobre o seu caso, aproveite essa oportunidade! Mas como você fará isso se você só lê textos jurídicos? Como você trará uma nova visão aos autos se você, bem… não possui essa visão?
“Que livros devo ler?”, você me pergunta? Leia (bons) livros de Administração, Marketing, Economia, Psicologia, Logística, etc. Aprenda a pensar estrategicamente, desenvolva habilidades mentais diferentes dos seus pares. Se Jurista, aprenda Cálculo; se Administrador, estude Direito; se Psicólogo, leia sobre estatística; se Economista, conheça neuroanatomia!
Tenha, por fim, uma visão geral sobre as outras áreas do conhecimento, seja um especialista generalista!
Publicado em 19/02/2010 às 9:31 na categoria Legalize. Acompanhe os comentários pelo Feed. Deixe seu comentário, ou um trackback do seu site.

















Brilhante artigo, Henrique! Vale o comentário de que este é um bom conselho para qualquer área, não só o direito.[]s
Pois é, mas por outro lado, conheço poucas… melhor dizendo, não conheço NENHUMA PROFISSÃO mais afeita a um argumento de autoridade.
Gostaria que alguns colegas de profissão lessem esse post.
Só me ocorre militar, policial, bombeiro, comissário de bordo (a voz do piloto é a lei), enfermeiro e técnicos em saúde…
Sem dúvida alguma o juiz é uma autoridade máxima, pque julga inclusive estes que citei, mas a verdade é que um militar, por exemplo, está tão sujeito a um argumento de autoridade quanto um advogado.
Né não?
É um texto importante de ser lido no início/meio de carreira de um freela.
Sempre acompanho seu blog pelos feeds, talvez tenha interesse em publicar ai com vocês:
http://migre.me/knMz
Oi, Carol!
O problema do Juiz é que não se argumenta com ele, mas para ele.
Mas o Direito não descreve nada que é, mas como “deve ser”. Em outras palavras, não discutimos se uma cadeira tem 3 ou 4 pernas, se um elétron é partícula ou onda, mas discutimos quem está ou não certo, sem equivalentes no mundo real/fático.
Daí, quem diz o que tal e qual lei realmente quer dizer ou como deve ser aplicada, são seres humanos e, assim, é um tal de “prescrição administrativa não é prescrição, mas decadência… NÃO É!… É sim, Hely Lopes Meirelles disse!… Ah, então só.”
Em outras profissões, é possível você meter um f…-se o que ele disse, 2+2 é igual a 4 porque estou VENDO isso!
No Direito, não se vê muita coisa, logo…
, quem diz o que é ou não certo, é
É, tem razão. É beeem mais bizarro mesmo.
Sem falar naquelas coisas – que nunca entendi direito – de que uma coisa pode até parecer errada, estar errada, ser errada, mas se alguém decidiu antes que podia ser certo, passa a ser certo e errado simultaneamente.
Direito, seu sobrenome é relatividade.
[...] originalmente publicado no Carreira Solo em [...]
belo artigo, tem bons conselhos nele.
Julia
A casa agradece!
Ótimos conselhos, me ajudou pacas.
Abrarrros.