Submarino.com.br

Sobre a arte de fazer desaparecer na medida certa.

ReiNu.jpg

Houve um tempo em que o mundo era grande. Um imenso aglomerado com alguns milhões de desconhecidos entre si. Guiados pela sorte, providência ou coincidências, vez por outra eles se encontravam.

O que faziam, porque o faziam e para que faziam nesses encontros e desencontros era de única e exclusiva competência dos envolvidos, em maior ou menor grau. E destes esbarrões, tropeços e tombos foi feita a história. Conforme conhecemos ou, melhor, conforme nos contaram.

Eis que a medida de nossa evolução foi a velocidade de um encolhimento atroz deste mesmo mundo. Ferramentas de comunicação extinguiram a ausência enquanto realidade possível. E com ele sumiram do mapa o desencontro e, sobretudo o desaparecimento.

Nas pistas que deixamos para trás todos os dias, em nossos perfis em redes sociais, nos cadastros de operadoras de celular, interligados com sua loja de departamentos preferida que por sua vez se comunica com seu banco; enfim, num mundo informacional ao extremo e para o regozijo de Mcluham, viramos uma rua de subúrbio. E cheia de vizinhos fofoqueiros.

Em meu perfil do Orkut, fotos só uma, comunidades as profissionais e uma ou outra de cunho estritamente pessoal. Meus filhos não estão na Web e quando falo de projetos e de parceiros profissionais, raramente cito nomes. Nunca valores.

O público e o quase-público.
Se antes vivíamos num pêndulo do público-privado, aquele tema que o Roberto DaMatta tanto adora, hoje temos várias instâncias públicas e pouca chance de uma vida privada. Outro dia trocava impressões sobre isso com uma jornalista amiga e ela pontuou muito bem:

Tudo o que coloco em meus blogs é público. Mas é um público que eu permito ser conhecido.

Temos vários ambientes públicos. Sua persona na internet é o Rei mais nu que já inventaram. Subvertendo um pouco o conto, o único que não vê é o menino, ou menina, que você insiste em deixar morar dentro de você.

Pense nisso.

Blog Widget by LinkWithin

Publicado em 04/04/2006 às 10:02 na categoria Inspiração. Acompanhe os comentários pelo Feed. Deixe seu comentário, ou um trackback do seu site.


6 Comentários para “Sobre a arte de fazer desaparecer na medida certa.”

  1. domene -

    Assunto complicado.

    Eu tento não deixar muitas pistas da minha vida pessoal na net, mas acho que sou falho. Acho que é quse impossível uma vigilancia constante efetiva. De vez em quando deve escapar alguma coisa.

    O orkut é onde mais deixamos pistas sem perceber: comunidade do colegio que estudamos, do bairro que moramos, a rede bem completa de amigos, etc.

  2. guilherme -

    Eu acho que estar no orkut é como o Gonzaguinha cantou, deixar a bunda exposta na janela… tá na chuva tem que saber que vai se molhar e quem num guenta…por que veio? A bem da verdade é que não dá pra ser totalmente sério ali, melhor, não dá pra analisar ninguém a fundo. Algumas histórias orientais dizem algo que cabe: é como mandar um beijo por recado pra alguém; Tanto quem manda quanto quem recebe sabem que aquilo é uma figura de linguagem. Até que ponto somos até mesmo na vida real o que somos pra nós mesmos? Me lembra aquele seu artigo sobre a personna digital e a real, de quando você assumiu sua foto aqui e no perfil. A gente num “atua” de uma maneira no elevador, com o chefe, com os colegas de trabalho, por mais que tentemos não ser dissimulados? Cada ambiente pede uma dança, a música difere. E o orkut pra mim é carnaval com som tocando em carro incomodando vizinhança, na república outro, no trio elétrico outro e de certa maneira não tem como escapar de ouvir tudo ao mesmo tempo. No meu caso , no carnaval me pico pro mato. Agora, o curioso é ter milhares de amigos hoje reclamando que nunca estiveram em redes sociais mas quando vão falar algo no boteco recebe como resposta frequente: “Eu já sei isso, vi no orkut da sua namorada…”

  3. Erik Marques -

    Ser achado não é complicado.. outro dia fiz uma busca pelo meu nome na net e surpresa.. tem quase tudo de mim..

  4. Mauro Amaral -

    Quase tudo o que você permitiu que saberem

  5. Renato Elais -

    Não tenho muito a declarar além do que já postei no meu blog: http://www.blog.s2n.com.br, com o que você comentou,montei um dossiê sobre mim mesmo, parti do principio que alguém me viu em um jogo e resolveu procurar sobre mim, claro que é possivel partir de vários lugares, como do meu e-mail, do meu nome, da minha cidade, diferentes resultados, mas todos teram um destino certeiro meu blog ou meu profile no orkut.

  6. Tay Amaral -

    Atualmente estou lendo o livro 1984 que caiu nas minhas mãos por acaso,estava na estante de casa esperando para ser lido, merecendo é claro uma boa leitura.
    O que me fez refletir sobre a exposição atual – lá os camaradas são obrigados a conviver com a teletela, e aqui temos vários tipos de “teletelas” que nos expoem de todas as formas e quando não são os outros, nós mesmos sentimos a necessidade de expor, talvez para encontrar pessoas em comum ou para expor nossa opnião, o preço é a possibilidade da megaexposição em talvez proporções gigantescas que nem desejamos.
    Acredito que não da pra fugir disso, estamos nesse mundo interconectado, o importante é não transformar as características da atual sociedade em neurose total.
    Panóptico é o termo usado por Pierre Lévy, onde mostra o poder exercido pelos novos meios de informação e seus usuários.
    E refere-se no geral para manter o controle, vigiar onde o outro não saber se está ou não realmente sendo vigiado.

Deixe seu comentário











Mauro Amaral

Editor Chefe

Mauro Amaral é editor, publicitário e conta histórias que o seu público vai gostar. Casado, pai de três filhos e mora no Rio de Janeiro. É o Diretor de Criação da Contém Conteúdo. Bio | Envie sua dúvida

Leia também