Vou logo avisando: este é um post difícil. Não de ser escrito, uma vez que saiu quase que de uma vez só, entre cinco mil tarefas do dia, mas de ser lido. Você, preso às tentações de ser ultra produtivo todos os dias, bombardeado por chamadas prontas que prometem “5 maneiras de se fazer algo”, muitas vezes, não se dá ao trabalho de pensar.

E ao fazer isso, flutua pelas superficialidades do não-dito e no não-refletido, achando-se um artesão de sua independência mas, simplesmente, repetindo aquilo que querem que você tenha em mente. Ou, no mínimo, não admite um parágrafo longo de abertura como esse.

Mas são as coisas menos imediatas que permanecem. E, aliás, se você permaneceu até aqui, depois dessas primeiras linhas, parabéns. Consegui fisgar a sua atenção. Que venham os poucos e bons, portanto!

Voltando: falava das coisas não tão imediatas, daquelas que ficam definitivamente presas em sua memória, no aprendizado e em sua experiência. E uma delas é o eterno retorno aos tempos da infância.

Muitos consideram um problema, que vai travar sua evolução pessoal ao longo de suas fases da vida. É, inclusive, o primeiro ponto tratado em um famoso livro chamado “O Herói de Mil Faces” (Joseph Campbell), tão alardeado como manual de contador de histórias. Segundo ele os ritos seriam necessários para quebrar fases, nos impulsionando para frente. E mais: a sociedade moderna (a obra é da década de 40 do século XX) por desmerecer a importância desses ritos, acaba por “crescer” frustrada e presa a uma infância interminável.

Contudo, não acho de todo mal voltar algumas vezes a esse período. Uma vez que reside nessa época da vida um Universo de coisas simples e bem resolvidas, um “não precisar de muito para ser feliz”, que você passa todos os seus anos tentando reencontrar.

Só por isso, buscamos voltar aos momentos de nossas brincadeiras e brinquedos tão frequentemente. E, não se engane, cada um tem a sua estrada preferida. Para uns, é no colecionismo, outros, em um comportamento específico. Claro, eu tenho a minha, é essa aqui:

Mangueira_Infância

Voltei várias vezes durante minha vida adulta à sombra dessa mangueira para pensar. Ela fica na casa dos meus pais e, a propósito, gosto de dizer que é minha. Tomei posse aos 6 anos quando resolvi “fugir de casa”, o que significava sentar ali debaixo e comer meia dúzia de bananas após um castigo bobo.

Esse é o meu retorno, pois trata-se de um ponto focal importante em minha existência, até hoje. Ali foram realizados almoços comemorativos, sorteados amigos-ocultos, inventados mundos e destruídas bases de comandos em ação. Ali foi pranteado o ente mais querido, quando se despediu do planeta, os filhos e netos deram os primeiros passos e casais, os últimos.

Ali também foram decididas coisas fundamentais da vida, pois, é uma esfera da existência onde tudo sempre parece ser mais simples. Largar um emprego, começar outro, mudar uma estratégia pessoal, casar.

Volto várias vezes por mês a essa casa e a esse pequeno pedaço do mundo, descalço e despido de pensamentos mais racionais, apenas para ver que a mangueira renasceu diversas vezes nesses quase 100 anos (a casa é nos anos 50, comprada pelos meus pais nos anos 70 e a mangueira já estava ali…), dando frutos.

Não se enganem, voltar para mim é sempre um ponto de partida. E costuma dar frutos. E para vocês?

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