Quando forem autônomas, embarcações carregarão a mesma questão ética: como dar-lhes poder de decisão sobre a vida humana?

Dona Alzira estende as roupas que acabara de lavar no riacho que corre nos fundos do seu sítio enquanto canta alegremente “Ensaboa mulata ensaboa”, do mestre Cartola.  O que esta senhora nem imagina é que um objeto voador no qual ela não reparou envia dados sobre clima, umidade relativa do ar, temperatura e até imagens aéreas do seu sítio para uma central de monitoramento.

00saildrone-1-superJumboFascinante e assustador não acham? Pois isso não é nada frente ao que a tecnologia dos veículos autônomos é capaz.
Mapear águas, a fim de informar as condições de saúde e vida nos mares e rios (ainda que seja nos mais gelados continentes), estudar hábitos alimentares de espécies aéreas, marinhas, terrestres e anfíbias ou os níveis de poluição e presença de microrganismos em diferentes áreas do planeta.

Essas são outras vertentes assumidas pela tecnologia de veículos não tripulados: A coleta de dados para que cientistas de dentro dos seus laboratórios possam estudar ecossistemas e criar soluções sem precisar estar in loco para isso.

Os Saildrones Autônomos são justamente essa embarcações que, sozinhas conseguem fazer o trabalho de vários profissionais. São similares aos trimarãs, mas, sua vela de fibra de carbono assume a função da asa do avião onde a passagem do ar impulsiona o veículo. Um contrapeso na frente e uma espécie de quilha na parte de trás da embarcação garantem o equilíbrio e um melhor aproveitamento da força do vento.

Mr. Jenkins prevê que a sua invenção seja multiplicada em milhares de outras embarcações que mapearão 100% dos mares e oceanos e que esse é o detalhe que faltava para a precisão absoluta nos dados sobre o aquecimento global, uma vez que, sem necessidade de tripulação, a embarcação pode pesquisar e fornecer dados das mais inóspitas regiões da terra.
Mas e quando o assunto é a substituição do motorista por um carro autônomo? Você deixaria o seu lugar virar mais um assento de passageiro?

É isso que pretendem marcas como a BMW que promete um carro totalmente autônomo para 2021

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Carro autônomo do Google já percorre a Califórnia e já se meteu em acidente recente. Quem vigia os vigilantes?

Testes existem aos montes, o Google, por exemplo, já faz uso de carros autônomos embora haja alguém no banco ao lado para intervir em caso de emergência. Não foi o que aconteceu no acidente de fevereiro desse ano, em Mountain View, onde fica a sede da empresa. O passageiro não interviu porque entendeu que o carro da Google “sabia” o que fazer. A colisão com um caminhão foi inevitável. O carro ficou avariado, mas ninguém se feriu.

A tecnologia dos veículos autônomos faz uso de dados enviados a um computador de bordo que interpreta esses dados. Sensores e radares analisam o trânsito, a quantidade de veículos, o fluxo desses veículos, bem como, a presença de outros obstáculos a fim de determinar a melhor rota a seguir.

O que fica um tanto confuso são quais “critérios éticos” seguiriam as máquinas ao se depararem com outros veículos igualmente não tripulados e em rota de colisão. Seria considerada a quantidade de pessoas em cada veículo para decidir quem sofreria o maior impacto? Ou a faixa etária dos ocupantes de cada veículo? Ou quem sabe a posição social dos ocupantes de cada veículo?

Quem preservar? Uma van escolar com 20 crianças, um ônibus da terceira idade com 95 velhinhos em romaria, ou um carro oficial e seus ocupantes membros do Itamaraty? Há como medir qual vida vale mais? De posse de dados estatísticos dos veículos evolvidos o que as máquinas deveriam fazer?

Questões com esse teor de gravidade não podem ser esquecidas por aqueles que pretendem substituir mãos e mentes humanas por máquinas.

Leis que versem sobre como devem ser operados os veículos autônomos, em que condições de trânsito, por quais pistas podem circular, qual a velocidade máxima permitida e se é viável misturar motoristas humanos e carros autônomos são apenas uma ínfima parte desse universo que se abre como uma alternativa àqueles que: tem fobia ao volante, não abrem mão de consumir álcool e voltar para a casa no próprio carro e mais ainda, gente que não tem tempo a perder no trânsito e já sonha em fazer do seu carro autônomo (imaginário por enquanto), uma extensão da sua empresa, casa ou biblioteca.

Como demonstrado no incidente com o carro da Google, veículos autônomos parecem não possuir (ainda) a capacidade de lidar com o inesperado “o que aconteceu foi que as duas partes consideraram que a outra cederia espaço na mesma pista.” Disse o funcionário da Google que estava no carro.

O mais interessante é que o motorista do ônibus não era uma máquina, mas um ser humano que, em nenhum momento fez questão de ceder espaço ao veículo autônomo. Bem como o ocupante do carro que também não interviu para ceder espaço.
Note-se que o que faltou aí foi algo há muito pregado por um saudoso filósofo e profeta carioca.

Seja no mundo das máquinas ou das pessoas, uma coisa é fato: Gentileza gera gentileza.

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